Yorgos Lanthimos, Athina Tsangari e a crise no novo cinema grego

Até que ponto uma crise econômica pode afetar a produção cultural de um país? A possível resposta foi dada por dois diretores dessa nova onda do cinema grego. Athina Rachel Tsangari, diretora em Attenberg (2012), disse que “O que acontece é que não temos muitos fundos, então, temos que gastar muito pouco para fazer filmes muito baratos”. Já Yorgos Lanthimos, que dirigiu Dente Canino (2009) e Alps (2011), afirmou que não sabe até quando diretores e produtores precisarão se sacrificar em nome da arte. Tais dificuldades, apontadas pelos dois diretores, refletem-se na produção de filmes deles: Lanthimos produziu Attenberg (2012), de Tsangari, e ela produziu os longas do diretor, incluindo Kinetta, de 2005.

lanthimostsaangriLanthimos e Tsangari

Há uma dificuldade enorme para se conseguir fundos e quem banque os filmes numa época tão turbulenta economicamente. No entanto, engana-se quem pensa que os filmes que vêm sendo produzidos no país mediterrâneo são, necessariamente, reflexos da crise econômica.

Tanto os filmes de Lanthimos quanto os de Tsangari tratam, de um jeito ou de outro, sobre relações familiares. Segundo Tsangari, a família é algo muito importante na Grécia. Ela, inclusive, chega a apontar esse sentimento fraternal e de confiança entre as pessoas do país como uma das causas dos resultados horríveis causados pela crise na Grécia. Outra particularidade comum aos dois diretores é a estranheza e peculiaridade dos filmes tão inusitados que criam.

Em Dente Canino (Lanthimos, 2009), a história gira em torno de um pai que mantém os três filhos, de 20 e poucos anos, confinados dentro de casa em um local afastado da cidade desde que nasceram. Além dos pais, nenhum dos três jamais cruzou o portão afora, nem teve contato com o mundo exterior à casa. Eles vivem, pensam e falam à maneira que lhes foi ensinada pelos pais. Todas as curiosidades que eles têm são sanadas com significados irreais criados pelos pais, que querem proteger os filhos das possíveis ameaças do mundo.                   Com um senso de humor insólito e culpado no começo, Dente Canino toma formas perturbadoras e inquietantes ao longo de seus 94 minutos.

dogtooth-450x297Cena de Dente Canino

Também de Lanthimos, Alpes (2011) conta a história de uma enfermeira, um paramédico, uma ginasta e seu treinador que têm um negócio distinto: eles formam um grupo denominado Alps, que oferece apoio a famílias que perderam entes próximos, substituindo quem morreu. São assim chamados porque, segundo o líder, o paramédico, os Alpes suíços poderiam substituir qualquer montanha no mundo, mas não poderiam ser substituídos por alguma outra.  Em troca de salário, cada integrante substitui uma pessoa e, com o consentimento da família, empenha-se a viver e fazer atividades como as pessoas que morreram faziam.                                                                                                                       Aqui também há humor contraditório e estranho, que contrasta muitas vezes com a angústia e desespero de quem busca preencher o vazio da perda de alguém querido, que, nesse caso, aparenta ser substituível.

Alps2Aggeliki Papoulia em cena de Alps

Attenberg (2010), de Tsangari, é sobre Marina (Ariane Labed), uma jovem de 23 anos que vive com seu pai, que é arquiteto e está com câncer. Ela evita contato com as pessoas, emocional e fisicamente, porque as julga estranhas. As pessoas com quem ela interage são seu pai, Spyros (Vangelis Mourikis) e sua única amiga, Bella (Evangelia Randou), com quem ela tem aulas sobre sexualidade.                                                                                                       Marina passa boa parte do seu tempo assistindo a documentários de David Attenborough sobre vida animal e escutanto sua banda preferida, Suicide. Enquanto Spyros, pessimista, espera sua morte, Marina se envolve num caso com um engenheiro que veio à cidade a trabalho.

attenbergEvangelia Randou e Ariane Labed em Attenberg

Mesmo que não muito comerciais, os filmes dessa nova safra grega vêm chamando muita atenção do mundo todo. Yorgos Lanthimos ganhou a mostra Um Certo Olhar de 2009, em Cannes, por Dente Canino; Ariane Labed, Marina em Attenberg, ganhou o prêmio de melhor atriz do Festival de Veneza de 2010.     Lanthimos, ao contrário de muitos, não acredita que os filmes que tem feito representem alguma cena pertinente no cenário cinematográfico do país, apesar de, assim como Tsangari, reconhecer a importância de retratar o país através de filmes para audiências no exterior e mesmo na Grécia.

Se há ou não denominações para o atual cenário cinematográfico grego, não se pode duvidar da criatividade e capacidade desses diretores. Criatividade e capacidade estas que eles mostraram ao realizar filmes originais e admiráveis com pouco orçamento e sem muitas condições.

Outros filmes da nova cena grega: L, Boy Eating the Bird’s Food, Strella, Tale 52.

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